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Seu time não precisa de mais uma palestra sobre IA.

05.05.2026 · 6 min de leitura

Entre em boa parte das áreas que dizem estar "adotando IA" e você não vai encontrar fluência. Vai encontrar três pessoas usando ChatGPT para reescrever e-mails, um analista curioso que descobriu o Claude sozinho, uma planilha de "casos de uso" parada há dois meses e um treinamento de quatro horas do qual ninguém lembra direito.

Não é falta de interesse.

Uma boa parte dos planos de adoção de IA confunde exposição com fluência. Trazem um especialista para uma palestra, liberam licença de Claude ou ChatGPT Enterprise, mandam um link para o curso da OpenAI e esperam que o time, sozinho, traduza aquilo em prática diária.

Um adulto ocupado, com agenda cheia, não vira fluente em uma ferramenta nova por osmose. Vira fluente quando alguém desenha uma progressão semanal com marcos pequenos o suficiente para caber em uma quinta-feira corrida e concretos o suficiente para ele perceber que ficou melhor entre a semana 2 e a semana 4.

Hilary Gridley publicou recentemente uma estrutura que pega emprestada a lógica do Couch-to-5K, aquele programa de corrida que tira alguém do sedentarismo e o leva até cinco quilômetros em nove semanas, e a aplica à fluência em IA (me chama na DM que mando o link). O ponto não é o programa específico dela, mas sim a forma. O C25K funciona porque ninguém sai do sofá e corre cinco quilômetros. Sai do sofá e anda oito minutos, corre um, anda oito, corre um. Na semana seguinte, anda seis e corre dois. A progressão é desenhada para que o ganho seja perceptível antes de a motivação acabar.

É exatamente isso que falta nos planos de IA das áreas que conheço.

O treinamento pontual entrega exposição, não competência

A objeção mais comum aqui é que o time é adulto, qualificado e deveria conseguir aprender sozinho. Afinal, já aprendeu sistemas novos, processos novos e plataformas novas o tempo todo. Por que com IA seria diferente?

O problema com essa objeção é que a curva de aprendizado de um sistema novo costuma ter feedback imediato e binário. O relatório saiu ou não saiu; o lançamento contábil bateu ou não bateu; a apresentação ficou pronta ou ficou pela metade. Com IA generativa, o feedback é qualitativo e contínuo, e isso muda tudo. A pessoa escreve um prompt, recebe uma resposta plausível e não tem como saber se aquela era a melhor forma de pedir, se existia uma abordagem três vezes mais eficiente, ou se ela acabou de gastar quarenta minutos em uma tarefa que renderia oito com outro contexto.

Sem alguém calibrando a progressão, cada um cria seu próprio teto baixo e fica nele. Esse efeito é ainda mais forte fora das áreas técnicas. Times com histórico em desenvolvimento de software tendem a ter mais facilidade para testar, errar e ajustar prompts; times de jurídico, RH, financeiro, marketing ou operações geralmente não têm o mesmo repertório técnico de tentativa e erro disponível.

Eu vivi isso, mesmo vindo de um lugar mais confortável. Sou da gestão de projetos, com histórico em desenvolvimento, e tenho algumas facilidades que muita gente não tem na hora de trazer IA para o dia a dia. Ainda assim, demorei meses entre o primeiro contato e o ponto em que a IA virou parte real do meu fluxo. O que me tirou do ceticismo não foi curso, palestra ou artigo de LinkedIn. Foi tentativa e erro em projetos pessoais pequenos, vídeos do YouTube quando eu travava e artigos do Substack quando queria entender por que algo tinha funcionado. Construí coisas que facilitassem minha organização pessoal, e cada uma delas me ensinou um pedaço, inclusive o segundo cérebro que descrevi em outro texto e que rendeu boas conversas sobre limites e dificuldades práticas.

A questão é que, deixado por conta própria, esse processo leva meses de calendário e exige um tipo de teimosia que nem todo mundo tem disponível em paralelo ao trabalho. Em uma equipe de doze pessoas, em uma área que não tem desenvolvimento de software como core, isso vira doze trajetórias diferentes, doze tetos diferentes e nenhuma forma de medir progresso coletivo.

O papel do gestor é desenhar a escada, não dar a aula

O gestor não precisa virar professor de prompt engineering. Precisa desenhar uma progressão semanal com três características: um marco específico que caiba em uma hora de trabalho, uma evidência observável de que o marco foi atingido e uma dependência clara entre o marco da semana atual e o da semana seguinte.

Para um time jurídico, semana 1 não é "explore o Claude". É "use IA para resumir três contratos curtos esta semana e traga, na reunião de quinta, um resumo que ficou bom e um que ficou ruim, explicando o porquê e como fez". Para um time de RH, semana 2 pode ser "use IA para gerar três versões de descrição de vaga e compare com a que você teria escrito sozinho". Para financeiro, semana 4 já é "automatize a primeira passada de análise de variação de um relatório que você faz todo mês". Na semana 8, o time começa a desenhar um fluxo próprio que todos reutilizam: um template de prompt salvo, uma biblioteca de exemplos, um padrão de revisão.

Os marcos são o que torna a fluência visível. Sem marcos, o gestor olha para o time depois de três meses e não sabe dizer se houve avanço; o time olha para si mesmo e também não sabe.

A objeção secundária é que o campo muda rápido demais para um plano de oito semanas fazer sentido. Modelo novo todo mês, ferramenta nova toda semana, e o plano estaria desatualizado antes de terminar. Não estaria. O que muda rápido são as ferramentas. O que não muda é a capacidade de formular um problema com clareza suficiente para que outro agente, humano ou não, consiga resolvê-lo. Essa é a habilidade que a escada está construindo. As ferramentas trocam, a capacidade fica, e quem passou pela escada uma vez troca de modelo em uma tarde.

O custo de não desenhar é invisível até ficar tarde demais

O time que ficou no hello world por seis meses não tem cara de problema. Continua entregando, continua cumprindo prazo, continua aparecendo nas reuniões. O custo aparece de lado: na entrevista da analista sênior que pede demissão e menciona que, no outro lugar, ela tem espaço para usar IA de verdade; no orçamento da próxima iniciativa, que sai três vezes mais caro do que precisaria; no momento em que a área vizinha entrega em seis semanas algo que vocês estavam estimando em quatro meses.

Fluência em IA não vem de quem tem mais talento, nem de quem é da TI. Vem de quem teve um plano semanal por tempo suficiente para o uso virar músculo. O C25K não funciona porque corredor é especial. Funciona porque alguém desenhou a progressão e a pessoa apareceu nos treinos da semana.